quarta-feira, 1 de dezembro de 2010

Entrei na faculdade jurando que sairia dela sem pegar DP. Não botei fé nos veteranos dizendo que Direito no Mackenzie é fácil de entrar e difícil de sair. Paguei a boca e taí minha primeira dependência: em Direito Processual Penal. 

Só pra registrar.

Do you really want to live forever?

Ossos do ofício - parte II

Aí teve um dia que eu saí do estágio mais cedo pra estudar. Peguei o ônibus por volta das 16h. O ponto mais próximo à minha casa fica numa rua estreita, com só duas faixas. É tão apertado que quando passa ônibus, não passa carro do outro lado. O motorista do ônibus aproveitou o trânsito parado e abriu a porta um pouco antes do ponto. Eu desci. E fui atropelada por uma moto que, impaciente, passou entre o ônibus e a calçada. E ainda tive que ouvir que eu deveria prestar mais atenção, porque "imagina se acontece alguma coisa com você, moça?". Retruquei que é verdade, que ele que tava certo por passar correndo entre o meio-fio e o ônibus parado; e pela direita! Fui pra casa com tanta raiva que até esqueci de sentir dor, mas a perna roxa do dia seguinte fez questão de me lembrar.

O blog é meu e eu posto o que eu quiser. E agora vai ter imagens também. Falou? Abraços.

quarta-feira, 24 de novembro de 2010

Fechada para balanço

Morava em um apartamentinho no Higienópolis, perto do Mackenzie, com mais duas amigas. Nos primeiros meses foi tudo muito bom, tudo muito bem, até que surgiu a necessidade de estudar com afinco - é isso que se faz na faculdade, né? Direito não é um curso fácil. Publicidade e Propaganda é. Essa diversidade gritante dentro de um mesmo nicho me fez sair do ambiente hostil e procurar uma toca com carinha de habitat natural. E com indicação dali, sugestão daqui, vim parar no Brooklin (não, não é tão longe quanto parece.) pra morar com uma amiga de uma amiga de uma amiga. Adoro e não pretendo sair tão cedo.
Àquela época surgiu a necessidade de, além de mudar de casa, trocar de estágio. Saí em busca de algo por essas bandas, fiz uma meia dúzia de entrevistas e passei a trabalhar no Itaim em fevereiro de 2010. Dia 02 de fevereiro, pra ser mais exata. "Um número cabalístico", disse o meu, até então, futuro chefe.
Foram 10 meses de puro sofrimento, mas cabe aqui a máxima do namorado: no pain, no gain. O que adquiri de conhecimento e experiência não foi pouco. E não digo conhecimento jurídico. Não só. Ganhei jogo de cintura, perspicácia, sagacidade e uma boa dose de malícia.
Só que chega uma hora que não compensa. Os ganhos acabam sendo infalivelmente menores que as perdas e aí a gente desiste, joga a toalha e corre pro colinho da mamãe. Foi a primeira vez que eu, no auge dos meus 20 anos, me senti adulta de verdade. Dona de mim. Sem o aval de ninguém, pedi demissão. Aproveitei pra me desligar do escritório no período de provas finais - a intenção foi compensar as notas baixas das provas intermediárias. Procuraria estágio sim, mas mais pra frente, depois das férias. Merecia um descanso, depois de 3 anos trabalhando non-stop.
Aí meu celular tocou e a ligação era privada. Não gosto, não atendo e não sei porque desta vez eu atendi. Era um dos escritórios que haviam me entrevistado a 10 meses atrás. Coincidentemente, o que eu havia me apaixonado. O escritório dos sonhos em todos os aspectos: grande porte, três andares de um mesmo prédio, internacionalmente reconhecido, ambiente lindo, decoração clean, folhas de rascunho timbradas na mesa de reunião, cheiro de couro, árvore de Natal tamanho GG na recepção, revistas em inglês na mesa de canto. E veja bem, não é que eu não passei. Só não havia vaga, à época, nas áreas em que manifestei interesse. Desta vez, marcaram-me pra 2ª fase da entrevista: conversa direta com os advogados. Reencontrei  a árvore de Natal GG.
Além de "possuir o perfil procurado pelo escritório", começo a trabalhar no dia 03 de janeiro de 2011, o que significa que não perderei minhas tão almejadas férias. E essa não é nem a melhor parte: o lugar é muito perto da minha casa. Não, mas é que eu ainda não contei o melhor: vou ganhar bem mais do que no escritório anterior. E o melhor vem agora: tô feliz pra caramba.

segunda-feira, 25 de outubro de 2010

Ossos do ofício - parte I

Se engana quem pensa que ingressar em uma universidade, morar sozinho e longe de casa é sinônimo de irresponsabilidade, descompromisso e falta de juízo. Pra mim nunca foi assim, e olha que já foram dois anos. Devo grande parte disso ao estágio, que comecei logo no início do curso. Desde então, dormir à tarde virou privilégio pros dias de cólica - e pros dias de preguicite aguda, confesso. Fora isso, qualquer tempinho extra é muito bem utilizado para os estudos, manutenção da casa, supermercado e lazer, né, que eu não sou de ferro. Mas nunca um lazer desenfreado, inconseqüente. Não dá, sabe? Não consigo. E quando dou uma deslizada, o peso na consciência é quase que instantâneo.
Foi num desses dias, de peso na consciência, que perdi hora na faculdade em função de uma baladinha que me impossibilitou até de escutar o despertador. Levantei aos exatos MEIO-DIA E CINQÜENTA E NOVE - frisando que meu horário de entrada no estágio é às 13 horas. Levantei e nem minha mãe acreditaria na rapidez com a qual me "arrumei". Entre aspas, porque a maquiagem e o cabelo eram do dia anterior. Trabalhei cansada, porém ansiosa pelo fim do expediente, já que era uma sexta-feira véspera de feriado. Lá pelas tantas recebi a notícia que diligenciaria ao Fórum de Santana naquela tarde. Beleza - pensei. - Vou conseguir chegar em casa mais cedo e partir rumo à Piracicaba, minha cidade-natal, antes do previsto. Ledo engano.
Foi me liberado o prazo a ser protocolado por volta das 16h da tarde, o que significa que eu teria 3h para fazer o percurso Itaim Bibi (Zona Sul) - Santana (Zona Norte). Numa sexta-feira. Véspera de feriado prolongado. De ÔNIBUS. E eu fui.
Entrei no ônibus que me levaria ao metrô, que me levaria a outro ônibus, que, este sim, me levaria ao Fórum. Trânsito parado. Fiquei 40 minutos dentro do primeiro ônibus e andei 10 metros, não mais que isso. Com medo do prazo, telefonei à minha chefe perguntando o que poderia ser feito, já que ela conseguiria enxergar o meu ônibus pela janela do escritório, se quisesse. Ela ordenou que eu descesse imediatamente e pegasse um táxi, pedindo ao taxista um recibo para que me fosse reembolsado o valor posteriormente. Que diferença faria? Um táxi não conseguiria costurar um trânsito que simplesmente não andava. Peguei um táxi sim, porém do outro lado da Avenida, que estava livre. Desta maneira, poderíamos ir cortando por ruas alternativas e evitar o tráfego pesado. Assim o fizemos. O taxista me garantiu que chegaríamos a tempo e eu estava sossegada, concentrada no joguinho do iPod. Não, não fomos ouvindo a Rádio Bandeirantes de trânsito. Fomos escutando a Jovem Pan.
No caminho, passando pelos lados da Barra Funda, demos de cara com uma perseguição digna de filme policial - vide http://bit.ly/atr2kb (ignorem o Datena, por favor). Motivo pra pânico. O moço do táxi tentou fugir do caos a todo custo, mas foi impossível.
Chegamos à Marginal Tietê. Parada, óbvio. Eu queria o quê? Marginal livre às 18h00 da tarde? Nem no meu melhor sonho. Andamos, paramos, andamos, paramos, paramos. A marcha não passava da 2ª. E eu comecei a roer as unhas.
Às 18h30 minha chefe me liga, perguntando se tinha dado tudo certo. Eu dentro do táxi, mal enxergando a linha do horizonte de tanto carro, balbuciei um "é.. hm.. mais ou menos.". Contei pra ela do caos, do trânsito, da dificuldade de chegar ao Fórum. Não obtive piedade ou clemência. Ao invés disso, ouvi um "pelo amor de Deus, Camila, não me faz perder esse prazo!!!". À essa altura do campeonato, minha perna tremia mais do que no exame prático de direção, mais do que no dia do vestibular, mais do que na minha primeira vez. Tudo o que a doutora me perguntava era quanto tempo faltava pra eu chegar. Eu não sabia responder e, tcharam, o taxista também não. Estávamos perdidos. E sem GPS.
Paramos num posto de gasolina para pedir informação e o frentista me tranqüilizou muito ao dizer que, iiih, o Fórum de Santana tava longe! Tinha que pegar a esquerda, fazer o retorno ali na frente, passar por cima da ponte e pegar a Marginal de volta. Fizemos tudo isso, só que, ao passar em cima da ponte, vimos o estado da Marginal na volta. Acredite: tava pior do que na ida. Os carros simplesmente não andavam. Não duvido que alguns tenham puxado o freio-de-mão.
O taxista - prestativo, coitado - disse que faria um caminho alternativo, sem pegar a Marginal. E os advogados me ligando desesperadamente no celular. Eu não queria atender. O choro tava preso e qualquer palavra que eu soltasse me faria desabar. Só tinha uma certeza: o prazo tava perdido e eu, demitida.
Oito pras 19h. Paramos num sinal vermelho e o taxista perguntou ao motoqueiro que encostou do nosso lado se ele conhecia a redondeza, se sabia onde ficava o Fórum de Santana. E ele respondeu que sim, que era só fazer w, x, y, z e.. Interrompendo, sugeriu que nós o seguíssemos, que ele passaria bem perto e poderia nos mostrar o caminho. Nessa hora, eu consegui escutar as engrenagens do meu cérebro trabalhando. Um táxi não conseguiria acompanhar as manobras de uma moto. Uma moto cortaria todo o trânsito. Um táxi só ficaria parado nele, e mais nada. E aí me deu um clique.
Pedi, implorei ao motoqueiro que me levasse ao Fórum de Santana. Ele disse que eu era maluca, que não poderia fazer isso porque só tinha um capacete, mas eu insisti. Disse que o daria quanto dinheiro quisesse, que precisava chegar lá antes das 19h se não ia perder meu emprego. Ele deve ter notado a minha cara de desespero, meus olhos vermelhos, minha voz trêmula. Ficou com dó. Mandou eu subir na garupa, colocar a mochila dele nas costas e pediu ajuda ao taxista para virar a placa da moto. E nós fomos. A 80, 90 quilômetros por hora, passando por sinal vermelho, lombada, por cima de calçada, fazendo curva fechada. O motoqueiro entrou por umas ruelas que só quem é muito conhecedor do bairro saberia sair. Ou só quem tem muita intenção de fazer coisa errada. Pensei "de duas, uma". Só torcia pra sair viva - e virgem dos orifícios que me restam.
O moço da moto perguntou quanto tempo tínhamos e eu perguntei se dois minutos eram suficientes. Ele perguntou se eu sabia rezar.
Chegamos. Perguntei ao homem de quanto dinheiro ele precisava e ele me mandou parar de enrolar e entrar logo no Fórum se não quisesse ter perdido viagem. Larguei a mochila dele e saí correndo, agradecendo. Passei pela porta detectora de metais, que apitou. Pedi desculpas ao seguranças, berrando que já voltava pra eles me revistarem. E corri pro setor de distribuição, esbarrando em todos os advogados desatentos que saíam do protocolo.
É, eu protocolei. Às 18 horas, 59 minutos e 27 segundos.
E com o coração pulsando na garganta, desabei a chorar.

Oi?

Tem alguém aí?