Se engana quem pensa que ingressar em uma universidade, morar sozinho e longe de casa é sinônimo de irresponsabilidade, descompromisso e falta de juízo. Pra mim nunca foi assim, e olha que já foram dois anos. Devo grande parte disso ao estágio, que comecei logo no início do curso. Desde então, dormir à tarde virou privilégio pros dias de cólica - e pros dias de preguicite aguda, confesso. Fora isso, qualquer tempinho extra é muito bem utilizado para os estudos, manutenção da casa, supermercado e lazer, né, que eu não sou de ferro. Mas nunca um lazer desenfreado, inconseqüente. Não dá, sabe? Não consigo. E quando dou uma deslizada, o peso na consciência é quase que instantâneo.
Foi num desses dias, de peso na consciência, que perdi hora na faculdade em função de uma baladinha que me impossibilitou até de escutar o despertador. Levantei aos exatos MEIO-DIA E CINQÜENTA E NOVE - frisando que meu horário de entrada no estágio é às 13 horas. Levantei e nem minha mãe acreditaria na rapidez com a qual me "arrumei". Entre aspas, porque a maquiagem e o cabelo eram do dia anterior. Trabalhei cansada, porém ansiosa pelo fim do expediente, já que era uma sexta-feira véspera de feriado. Lá pelas tantas recebi a notícia que diligenciaria ao Fórum de Santana naquela tarde. Beleza - pensei. - Vou conseguir chegar em casa mais cedo e partir rumo à Piracicaba, minha cidade-natal, antes do previsto. Ledo engano.
Foi me liberado o prazo a ser protocolado por volta das 16h da tarde, o que significa que eu teria 3h para fazer o percurso Itaim Bibi (Zona Sul) - Santana (Zona Norte). Numa sexta-feira. Véspera de feriado prolongado. De ÔNIBUS. E eu fui.
Entrei no ônibus que me levaria ao metrô, que me levaria a outro ônibus, que, este sim, me levaria ao Fórum. Trânsito parado. Fiquei 40 minutos dentro do primeiro ônibus e andei 10 metros, não mais que isso. Com medo do prazo, telefonei à minha chefe perguntando o que poderia ser feito, já que ela conseguiria enxergar o meu ônibus pela janela do escritório, se quisesse. Ela ordenou que eu descesse imediatamente e pegasse um táxi, pedindo ao taxista um recibo para que me fosse reembolsado o valor posteriormente. Que diferença faria? Um táxi não conseguiria costurar um trânsito que simplesmente não andava. Peguei um táxi sim, porém do outro lado da Avenida, que estava livre. Desta maneira, poderíamos ir cortando por ruas alternativas e evitar o tráfego pesado. Assim o fizemos. O taxista me garantiu que chegaríamos a tempo e eu estava sossegada, concentrada no joguinho do iPod. Não, não fomos ouvindo a Rádio Bandeirantes de trânsito. Fomos escutando a Jovem Pan.
No caminho, passando pelos lados da Barra Funda, demos de cara com uma perseguição digna de filme policial - vide http://bit.ly/atr2kb (ignorem o Datena, por favor). Motivo pra pânico. O moço do táxi tentou fugir do caos a todo custo, mas foi impossível.
Chegamos à Marginal Tietê. Parada, óbvio. Eu queria o quê? Marginal livre às 18h00 da tarde? Nem no meu melhor sonho. Andamos, paramos, andamos, paramos, paramos. A marcha não passava da 2ª. E eu comecei a roer as unhas.
Às 18h30 minha chefe me liga, perguntando se tinha dado tudo certo. Eu dentro do táxi, mal enxergando a linha do horizonte de tanto carro, balbuciei um "é.. hm.. mais ou menos.". Contei pra ela do caos, do trânsito, da dificuldade de chegar ao Fórum. Não obtive piedade ou clemência. Ao invés disso, ouvi um "pelo amor de Deus, Camila, não me faz perder esse prazo!!!". À essa altura do campeonato, minha perna tremia mais do que no exame prático de direção, mais do que no dia do vestibular, mais do que na minha primeira vez. Tudo o que a doutora me perguntava era quanto tempo faltava pra eu chegar. Eu não sabia responder e, tcharam, o taxista também não. Estávamos perdidos. E sem GPS.
Paramos num posto de gasolina para pedir informação e o frentista me tranqüilizou muito ao dizer que, iiih, o Fórum de Santana tava longe! Tinha que pegar a esquerda, fazer o retorno ali na frente, passar por cima da ponte e pegar a Marginal de volta. Fizemos tudo isso, só que, ao passar em cima da ponte, vimos o estado da Marginal na volta. Acredite: tava pior do que na ida. Os carros simplesmente não andavam. Não duvido que alguns tenham puxado o freio-de-mão.
O taxista - prestativo, coitado - disse que faria um caminho alternativo, sem pegar a Marginal. E os advogados me ligando desesperadamente no celular. Eu não queria atender. O choro tava preso e qualquer palavra que eu soltasse me faria desabar. Só tinha uma certeza: o prazo tava perdido e eu, demitida.
Oito pras 19h. Paramos num sinal vermelho e o taxista perguntou ao motoqueiro que encostou do nosso lado se ele conhecia a redondeza, se sabia onde ficava o Fórum de Santana. E ele respondeu que sim, que era só fazer w, x, y, z e.. Interrompendo, sugeriu que nós o seguíssemos, que ele passaria bem perto e poderia nos mostrar o caminho. Nessa hora, eu consegui escutar as engrenagens do meu cérebro trabalhando. Um táxi não conseguiria acompanhar as manobras de uma moto. Uma moto cortaria todo o trânsito. Um táxi só ficaria parado nele, e mais nada. E aí me deu um clique.
Pedi, implorei ao motoqueiro que me levasse ao Fórum de Santana. Ele disse que eu era maluca, que não poderia fazer isso porque só tinha um capacete, mas eu insisti. Disse que o daria quanto dinheiro quisesse, que precisava chegar lá antes das 19h se não ia perder meu emprego. Ele deve ter notado a minha cara de desespero, meus olhos vermelhos, minha voz trêmula. Ficou com dó. Mandou eu subir na garupa, colocar a mochila dele nas costas e pediu ajuda ao taxista para virar a placa da moto. E nós fomos. A 80, 90 quilômetros por hora, passando por sinal vermelho, lombada, por cima de calçada, fazendo curva fechada. O motoqueiro entrou por umas ruelas que só quem é muito conhecedor do bairro saberia sair. Ou só quem tem muita intenção de fazer coisa errada. Pensei "de duas, uma". Só torcia pra sair viva - e virgem dos orifícios que me restam.
O moço da moto perguntou quanto tempo tínhamos e eu perguntei se dois minutos eram suficientes. Ele perguntou se eu sabia rezar.
Chegamos. Perguntei ao homem de quanto dinheiro ele precisava e ele me mandou parar de enrolar e entrar logo no Fórum se não quisesse ter perdido viagem. Larguei a mochila dele e saí correndo, agradecendo. Passei pela porta detectora de metais, que apitou. Pedi desculpas ao seguranças, berrando que já voltava pra eles me revistarem. E corri pro setor de distribuição, esbarrando em todos os advogados desatentos que saíam do protocolo.
É, eu protocolei. Às 18 horas, 59 minutos e 27 segundos.
E com o coração pulsando na garganta, desabei a chorar.